Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

As caras trocadas


Desenho do meu afilhado, Rodrigo Paulino Leitão (aos 6 anos)

 

Era uma vez uma mulher muito má que, havendo casado com um viúvo, tinha uma filha deste e uma enteada. A filha era sovina e feia, feia como um bode, e a enteada, liberal e linda como o Sol.

 

Mal amanhecia, a madrasta gritava para a enteada:

 

 

- Levanta-te, que tens bom corpo para trabalhar. Faz a cama, varre a casa, deita de comer às galinhas e carrega com a lavagem dos porcos. Mas toma cautela, que, se o serviço não fica em termos, moio-te o corpo com pancada.

 

E depois corria ao quarto da filha e dizia-lhe:

 

- Deixa-te estar na cama, minha rica filha, que eu trago-te leitinho e pão com mel. Precisas de repouso, pois andas magrita.

 

À filha enchia-a, a mulher, de paparicos e festinhas e à enteada dava-lhe fome negra e açoites! Ora, uma tarde, a mesma encarregou as duas meninas de irem para o campo, a fim de guardarem a sua vaca, que andava a pastar. À filha entregou-lhe, para a merenda, um cestinho repleto de coisas boas: uma fatia de bolo de chocolate, um pão com marmelada, uma garrafa de leite, além de rebuçados e mais guloseimas. Mas à enteada, coitadita, só lhe deu uma bolorenta côdea de broa...

 

 

Foi decorrendo a tarde e, quando chegou a hora das meninas comerem, surgiu junto delas uma velha muito velha, que era na verdade uma fada disfarçada, que lhes pediu:

 

- Minhas boas meninas, dais-me um bocadinho da vossa merenda?

A enteada partiu logo ao meio a sua côdea e ofereceu-lhe metade. Mas a outra rapariga voltou-lhe a cara. A fada disse consigo: “Isto não pode ficar assim. Uma menina tão boazinha merece recompensa; e uma tão esganada, uma ensinadela...” E pensando deste modo, a fada logo acariciou o cajado, que não era mais do que a sua varinha de condão, e determinou, de forma que elas não ouvissem:

 

- Eu vos fado para que as vossas caras se troquem, a menina feia que se torne bonita e a bonita, feia.

 

Com isto, sumiu-se a fada, e daí a pouco, começou a escurecer. As meninas, tangendo a vaquinha, tomaram o caminho de casa, sem que dessem pela mudança sofrida nas suas pessoas.

 

Quando chegaram à mesma, a madrasta julgou, mercê da referida mudança, que a menina feia era a filha e a bonita, a enteada. Por isso, deu beijinhos e sopinhas de leite à primeira e, à segunda, nova côdea bolorenta de broa, mandando-a em seguida dormir para a loja, sobre a palha húmida, na companhia dos ratos e das teias de aranha.

 

 

 

 

E, de futuro, tudo correu de maneira semelhante, isto é, a enteada a receber mimalhices e a filha, maus tratos.

 

Mas, certo dia, o filho do Rei viu à janela a menina bonita e, de pronto, se enamorou dela, pedindo-le que, à noite, aparecesse de novo à janela, a fim de conversarem. A tratante da mulher ouvira porém tudo e, por isso, mal o prícipe se foi no seu irrequieto cavalo preto, chamou a moça e fechou-a a sete chaves na loja, dizendo à menina feia, que supunha ser a sua filha:

 

- Assim que ficar escuro, põe-te à janela, pois o melhor partido destas terras, o filho do Rei, virá falar contigo. Mas leva um véu, que te esconda a cara...

A menina cumpriu a ordem, mas, como não era capaz de enganar ninguém, quando o Príncipe apareceu, disse-lhe:

 

- Não sei como vos agradastes de mim, meu senhor, visto que sou a rapariguinha mais feia das redondezas!

 

O Príncipe, incrédulo, desatou a rir e retorquiu-lhe.

 

- Então mostra-me a tua cara...

 

A menina assim fez, mas, nesse momento, a fada restitui-lhe a sua formusura. Ao vê-la tão bonita, o Príncipe ainda mais se enamorou dela. E, imediatamente, a pediu em casamento.

 

Chegando o dia da boda, a mulher de novo encerrou na loja a filha e obrigou a enteada a pôr o véu, pois saída da janela, esta, pelas artes da fada, voltara a ser feia. E não se esqueceu de lhe determinar:

 

- Só tiras o véu assim que estiveres casada. 

 

 

 

Seguiu, por conseguinte, a menina com o véu num coche de talha doirada, forrado a cetim branco, que seis cavalos tiravam. E de véu também entrou na igreja e deu a mão ao Príncipe. Mas, logo que o padre os casou, ela arrancou-o, aparecendo sob o seu verdadeiro aspecto, isto é, muito linda. Ou não tivesse a fada a assistir ao acto, misturada com os convidados...

 

Ao vê-la assim, a madrasta teve um chilique. E, recompondo-se, correu a casa e abriu a loja, onde achou a filha, restituída à fealdade. Segundo consta, as duas rebentaram então de inveja...

 

 

sinto-me:
publicado por VANDOVSKY às 07:00
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