Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Poesias e Lengalengas

 

 Jogo da Bola

 

A bela bola rola:

a bela bola do Raul.

Bola amarela, a de Arabela.

A do Raul, azul.

Rola a amarela

e pula a azul.

A bola é mole,

é mole e rola.

A bola é bela, 

é bela e pula.

É bela, rola e pula,

é mole, amarela, azul.

A de Raul é de Arabela,

e a de Arabela é de Raul.

 Cecília Meireles

(Ou Isto ou Aquilo)

Editora Nova Fronteira

 

  



 

A Bailarina

 

Esta menina tão pequenina

quer ser bailarina.

 

Não conhece nem dó nem ré

mas sabe ficar na ponta do pé.

 

Não conhece nem mi nem fá

mas inclina o corpo para cá e para lá.

 

Não conhece nem lá nem si,

mas fecha os olhos e sorri.

 

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar

e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.

 

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

 

Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.

 

Cecília Meireles

(Ou Isto ou Aquilo)

Editora Nova Fronteira

  

  

Outono

           

Irás

pela rua

verás

as folhas

cair.

 

Se alguma

te pousar

no ombro

hás-de mandá-la embora

porque chegou a hora

de dormir.

 

Mário Castrim

 (Na Rota das Palavras)

Fundação Calouste Gulbenkian

  

 

 

  

Luís, o poeta, salva a nado o poema

 

Era uma vez
um português
de Portugal.


O nome Luís
há-de bastar
toda a nação
ouviu falar.


Estala a guerra
e Portugal
chama Luís
para embarcar.


Na guerra andou
a guerrear
e perde um olho
por Portugal.


Livre da morte
pôs-se a contar
o que sabia
de Portugal.


Dias e dias
grande pensar
juntou Luís
a recordar.


Ficou um livro
ao terminar,
muito importante
para estudar:


Iá num barco
ia no mar
e a tormenta
vá d'estalar.


Mais do que a vida
há-de guardar
o barco a pique
Luís a nadar.


Fora da água
um braço no ar
na mão o livro
há-de salvar.


Nada que nada
sempre a nadar
livro perdido
no alto mar.


_ Mar ignorante
que queres roubar?
A minha vida
ou este cantar?
A vida é minha
ta posso dar
mas este livro
há-de ficar.


Estas palavras
hão-de durar
por minha vida
quero jurar.


Tira-me as forças
podes matar
a minha alma
sabe voar.


Sou português
de Portugal
depois de morto
não vou mudar.


Sou português
de Portugal
acaba a vida
e sigo igual.


Meu corpo é Terra
de Portugal
e morto é ilha
no alto mar.


Há portugueses
a navegar
por sobre as ondas
me hão-de achar.


A vida morta
aqui a boiar
mas não o livro
se há-de molhar.


Estas palavras
vão alegrar
a minha gente
de um só pensar.


À nossa terra
irão parar
lá toda a gente
há-de gostar.


Só uma coisa
vão olvidar
o seu autor
aqui a nadar.


É fado nosso
é nacional
não há portugueses
há Portugal.


Saudades tenho
mil e sem par
saudade é vida
sem se lograr.


A minha vida
vai acabar
mas estes versos
hão-de gravar.


O livro é este
é este o canto
assim se pensa
em Portugal.


Depois de pronto
faltava dar
a minha vida
para o salvar.


José de Almada Negreiros

(Na Rota das Palavras)

 Fundação Calouste Gulbenkian

 

 

 

 

 

 

 Uma história bonita mas salgada

 

O Bacalhau da Noruega

casou com uma portuguesa.

Viviam os dois muito bem,

Mas o Bacalhau tinha

Um grave problema à mesa:

Enjoava-se com as natas,

Sempre que as vias, fazia-lhes caras,

Caras de Bacalhau,

E conversava com as netas,

Explicando como era mau

Ter aquela alegria, ou mania,

Ou lá o que seria.

Chegava a ficar doente,

Pobre Bacalhau, ficava de “molho”.

  

 

O Bacalhau da Noruega

É amigo do Zé do Pipo,

Aliás, um bom tipo, que é cunhado do Brás,

Aquele que nada faz,

Desde que ganhou a lotaria.

Sempre  que se encontram

Cumprimentam-se com grandes bacalhaus,

Mas o da Noruega é o maior,

Porque este Bacalhau é dotado de grande alegria. (...)

 

 

Alexandre Honrado

(Histórias que apanharam bicho)

Terramar

   

 

O sol no castelo de Almourol

 

Vi poisar o Sol
no castelo de Almourol
E inventei uma história
com sombras e clarões
príncipes e ladrões
fadas e fadistas,

espadas e turistas,

reis e rainhas,
rios e tainhas
água e aguardente

de medronho
a correr no rio

do sonho.
Tudo isto
quando o Sol
se pôs
no castelo de Almourol
que rima com rouxinol
que rima com Sol.

Matilde Rosa Araújo

(Na Rota das Palavras)

Fundação Calouste Gulbenkian

 



Sola, sapato

 

Sola, sapato,

rei, rainha

foi ao mar

pescar sardinha

para o filho

do juiz

Que está preso

pelo nariz;

salta a pulga

na balança

dá um pulo

vai para França,

Os cavalos a correr

as meninas a aprender,

a mais bonita de todas

comigo se há-de esconder. 

Alice Vieira

(Eu bem vi nascer o Sol)

Antologia da poesia popular portuguesa

Caminho

 

 

 

 

O Baloiço

 

Sobe, sobe meu baloiço

Vai tão alto que nem sei

Meu baloiço agora é trono

Neste momento eu sou Rei.

 

No baloiço subo e desço

E vejo bem lonje assim

Os telhados vermelhinhos

E o relvado do jardim

"O Sorriso"

Livro Leitura 2ª classe (1976/77)

  


 

 

Mário Mora foi a Mora

Com intenção de vir embora.

Mas, como em Mora demora,

Diz um amigo de Mora:

Está cá o Mora?

Está, está cá o Mora.

Então agora o Mora mora em Mora?

Mora, mora.

  


  

O tempo

 

O tempo perguntou ao tempo

Quanto tempo, o tempo tem

O tempo respondeu ao tempo

Que o tempo tem tanto tempo

Quanto o tempo o tempo tem.

 

 

Balada da Neve 

 

Batem leve, levemente,

como quem chama por mim.

Será chuva? Será gente?

Gente não é, certamente

e a chuva não bate assim.

 

É talvez a ventania:

mas há pouco, há poucochinho,

nem uma agulha bulia

na quieta melancolia

dos pinheiros do caminho...

 

Quem bate, assim, levemente,

com tão estranha leveza,

que mal se ouve, mal se sente?

Não é chuva, nem é gente,

nem é vento com certeza.

 

Fui ver. A neve caía

do azul cinzento do céu,

branca e leve, branca e fria...

– Há quanto tempo a não via!

E que saudades, Deus meu!

 

Olho-a através da vidraça.

Pôs tudo da cor do linho.

Passa gente e, quando passa,

os passos imprime e traça

na brancura do caminho...

 

Fico olhando esses sinais

da pobre gente que avança,

e noto, por entre os mais,

os traços miniaturais

duns pezitos de criança...

 

E descalcinhos, doridos...

a neve deixa inda vê-los,

primeiro, bem definidos,

depois, em sulcos compridos,

porque não podia erguê-los!...

 

Que quem já é pecador

sofra tormentos, enfim!

Mas as crianças, Senhor,

porque lhes dais tanta dor?!...

Porque padecem assim?!...

 

E uma infinita tristeza,

uma funda turbação

entra em mim, fica em mim presa.

Cai neve na Natureza

– e cai no meu coração.

 

 Augusto Gil 

Luar de Janeiro, 1909

 


 

Estrelinha

  

Eu vejo do meu quarto de dormir

Uma estrelinha

Miudinha

A luzir...

 

Mas se o Sol é tão grande

E tanto brilha,

A estrelinha

Miudinha

È certamente sua filha.

 

E enquanto o Pai Sol

Enorme

Dorme,

Ela vai passear

Todas as noites.

 

Quando o Pai Sol acordar,

A estrelinha

Muidinha

Leva açoites

E vai-se logo deitar.  

Sidónio Muralha

Bichos, Bichinhos e Bicharocos

 


 

O último andar 

 

No último andar é mais bonito:

do último andar se vê o mar.

É lá que eu quero morar.

 

O último andar é muito longe:

custa-se muito a chegar.

Mas é lá que eu quero morar.

 

Todo o céu fica a noite inteira

sobre o último andar

É lá que eu quero morar.

 

Quando faz lua no terraço

fica todo o luar.

É lá que eu quero morar.

 

Os passarinhos lá se escondem

para ninguém os maltratar:

no último andar.

 

De lá se avista o mundo inteiro:

tudo parece perto, no ar.

É lá que eu quero morar:

 

no último andar.

 

 Cecília Meireles

www.artigos.com

 

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publicado por VANDOVSKY às 16:58
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