Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

Canta, Surrão!

 

 

 

EM tempos que já lá vão, havia uma viúva que tinha uma filha, de nome Beatriz, que era o seu “Ai Jesus". A menina, uma grande curiosa, nunca saía da beira da mãe, sem que esta lhe dissesse:

 

-Tem cautela, Beatriz, vê lá onde metes o nariz! Apesar, porém, deste aviso, a cachopita, muito embora prometesse ser ajuizada, mal se via longe da mãe, coscuvilhava tudo, acontecendo-lhe, por isso, constantes e desagradáveis surpresas. Metia o dedo no frasco da pimenta e ficava com a língua em fogo; mexia na ratoeira dos ratos e trilhava-se. Assim, a pobre mãe andava sempre em sobressaltos e a queixar-se aos vizinhos:

- Ai, senhora Míquelína, qualquer dia fico sem a minha menina!

- Ai, senhor Ferreira, que cuidados! Esta filha é os meus pecados ...

Certa vez, por alturas do S. João, as outras raparigas da terra vieram pedir à mãe de Beatríz, que a deixasse ir com elas tomar banho ao rio. A mãe, após muito instada, consentiu. Largou dali, portanto, o rancho, não sem que antes, e como de costume, aquela aconselhasse à filha que procedesse com tino, para que lhe não sucedesse nenhum mal. A menina prometeu seguir o conselho. Mas, chegada ao rio, a sua cabecinha oca já de nada se lembrava. E, no momento de se meterem à água, disse-lhe uma das companheiras:

- Tira os teus brincos e põe-nos em cima de uma pedra, visto que te podem cair na água.

Beatriz assim fez e entrou depois no rio com as amigas. Ora, estando todas a chapinarem-se, veio uma pega e roubou os brincos e, logo em seguida, passou pelo mesmo local um velho, com um surrão ao ombro. Terminado o banho, Beatriz deu por falta dos brincos e desatou a chorar. E as companheiras, então, sugeriram:

- Se calhar, foi o velho quem os roubou.

A menina não quis ouvir mais, largando a correr no encalço do velho. E, como sucedesse alcançá-lo, rogou- -lhe:

- Dê-me os meus brincos, santinho!

- Tu estás maluca, rapariga? Ceguinho seja, se tos roubei ...

Beatriz acreditou, mas, vendo-lhe o saco e ardendo em curiosidade de saber o que ele continha, fingiu que não acreditara e retorquiu:

- Quem mais jura mais mente... Cá para mim, vocemecê tem-nos escondidos no surrão.

- Ah, ele é isso? Pois então espreita - vociferou o velho, muito zangado.

Beatriz meteu a cabeça e, no mesmo instante, o velho empurrou-a para dentro dele e fechou-o, pondo-o às costas e seguindo jornada. Quando as outras pequenas apareceram sem a companheira, a pobre viúva, por entre lágrimas, lamentou-se:

- Eu não lhe dizia, senhora Miquelina, que ficaria sem a minha menina?

- Veja, senhor Ferreira, no que deu a asneira!

O velho, ao passar entretanto a serra, abriu o surrão e disse para a pequena:

- Daqui em diante, hás-de-me ajudar a ganhar a a vida. Eu ando pelas estradas, feiras e romarias a pedir e, quando disser:

 

Canta, surrão,

Senão levas com o bordão

 

tens de cantar por força. Toma sentido ...

Decorreu algum tempo, espalhando-se a fama do velho, que tinha um surrão encantado. O povinho acorria de todas as bandas, para certificar-se da maravilha. E o velho ordenava, de cajado ao alto:

 

Canta, surrão,

Senão levas com o bordão


E logo o saco, ou antes uma voz dentro dele, cantava:

 

Estou metida neste surrão,

Onde a vida perderei,

Por amor dos meus brinquinhos

Que na fonte deixei.

 

As gentes abriam a boca e enchiam o chapéu, sebento e esburacado, do velho com belas moedas de cobre e prata. E, com isto, o marau engordava, ao passo que a menina  emagrecia por obra das saudades da mãe e dos maus tratos recebidos.

- Deixe-me voltar para casa, tiozinho! - pedia ela, de mãos erguidas.

- Não sejas calaceira, rapariga! Canta mas é, pois quem não trabuca não manduca ... - replicava-lhe ele, dando-lhe um bofetão.

De tanto o saco cantar, chegou a novidade do caso aos ouvidos das autoridades, que trataram de saber onde pousava o velho. E, sabido isto, apanharam-no a dormir e revistaram o saco, encontrando assim a menina, que, coitadinha, de tão fraca que estava, mal já se tinha nas pernas. O velho, de castigo, foi obrigado, de futuro, a trazer  sempre o surrão cheio de pedras. E a menina voltou para junto da mãe, que lhe disse:

-Viste, Beatriz, não tomaste emenda e ias morrendo por um triz!

Mas a menina teve, doravante, muito juizo e, por isso, acabou-se a história.

 

Colecção Formiguinha

Editorial Infantil MAJORA

Porto - Portugal

Livro nº 22

publicado por VANDOVSKY às 09:00
link do post | comentar | favorito

                     Este    Blog              utiliza     o      Google                  Chrome

restos de mim

encontre outros restos

 

Abril 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30


novos restos

Primavera

Inscrição para uma lareir...

A neve

Quando Está Frio no Tempo...

David Bowie... Sempre

Winter Wonder

Menino

Clandestinos do Amor

UPI na Escola

Momentos de inspiração VI...

Momentos de inspiração VI

Momentos de inspiração V

Palavras de mãe

Dá-me um beijo

Dia nacional do estudante

Dia da mulher

Vamos adivinhar II

O Vento que soa...

De passagem por Monsanto....

A cerimónia do chá II

restos conservados

English French German Spain Italian Dutch
Russian Portuguese Japanese Korean Arabic Chinese Simplified
By Ferramentas Blog

mais inspiradores

tags

todas as tags

restos especiais

Música Tradicional da Bei...

A minha Aldeia

My favourite time of year

Aldeias Históricas... e n...

Momento musical


outros caminhos


Be Happy!!

Directorio de Blogs Portugueses