Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010

Duas tardes em Belmonte

 

A lenda do Cabrais – Belmonte

 

Cheio de sono e de sonhos. O José partia para a serra. Assistia, diariamente, ao amanhecer. Palmilhava caminhos longos, longos... saboreando os cheiros frescos da Terra a acordar. Reconhecia o chocalhar de perto e de longe, as vozes dos rebanhos, o chiar de carros de bois... As cores bebiam lentamente a luz do dia e a Serra oferecia-se abundante, enfeitiçava os pastores de sonhos.

Vidas sós, os sons sorvem o silêncio de mundos longínquos...

 

- Éi Amaraela-a-a-a!

Õi-ôi-ôi-ôi- Õ-i...

 

Os rebanhos aproximam-se, tilintam cantilenas, juntam-se no campo de tufos de erva sumarenta, com o cão Mondego, atento, vigilante, sem horas de descanso... É então que as ideias se tresmalham em histórias escritas pelo conhecimento e imaginação do José, dos pastores.

Era nos dias mais ensolarados, sem o corpo a reclamar agasalho, outros confortos, que o pensamento corria desaustinado. Então, abria cancelas proibidas, desviava-se  para espaços não recomendáveis, assentava arraiais onde muito bem lhe aprazia...

Ei! Quem ensina a domar, a prender o pensamento? É que, desde há muito, cismava com aquele sonho três-noites-seguidinhas, a esgueirar-se pela choça da palha, a vir com ele para a Serra. Ocupava-lhe todos os bocadinhos e punha-o fora de si. Ora se lhe abandonava confiante, ora o agarrava descrente fechando-o em redil de palavras:

 

- Eu acredito lá nisso!!! É mais uma historieta das que se contam.

 

Mas a voz de velhos avós voltava, impunha-se e garantia:

 

- Se sonhares três noites seguidas com um “haver”, se guardares segredo, se cumprires o que te disseram no sonho, o tesouro será teu!


E ele sonhara. Três noites seguidas! Seguidinhas. Mal fechava os olhos com a lua curiosa, sempre a espreitar pelos orifícios que descobria, adormecia... E a voz cristalina, linda de enfeitiçar convidava-o:

 

- Vai a Belém e aí encontrarás o teu bem!

- Vai a Belém e aí encontrarás o teu bem!

- Vai a Belém e aí encontrarás o teu bem!

Assim. Nem mais, nem menos.

 

 

Se fosse, não tinha nada a perder. O José, de abundante, só conhecia o trabalho e o frio... Às vezes, um frio que se entranhava e fazia doer o corpo todo!

E se fosse? Vacilava: Vou, não vou, são histórias, nunca se sabe...

Um dia, partiu. No Inverno. Vestiu a samarra, os safões, cobriu-se com o cobertor de lã de ovelha, sarrão a tiracolo e o “segredo” guardado a sete-chaves. Andou, andou, andou... Tudo tão diferente da sua Serra! As saudades começavam a pregar-lhe partidas e até do frio se recordava, sorrindo. Como se fosse uma coisa boa. Que óculos nos põem as saudades?! Andarilhou léguas e léguas maiores do que as da Póvoa... e cansava. Cada vez com maior frequência, recordava a montanha, o cão Mondego e sobretudo a Maria, a menina dos seus olhos e a moçoila mais linda debaixo do sol. Era também por ela que se atrevia a tal caminhada. Porque se o “bem” existisse... Ele e a Maria haveriam de viver uma história de amor muito feliz.

O tempo passava devagar, nada acontecia e começava a descrer... Onde ficara a “Voz”? Histórias!!!

Coração apertadinho, ergueu a música que tocava na flauta de cana quando a Maria passava. A vê-la bailar, corar e sorrir, como um pássaro e um sol, cantou:

 

“Era ainda pequenino

Acabado de nascer.

‘Inda mal abria os olhos

Já era para te ver.

 

Quando eu já for velhinho

Acabado de morrer,

Olha bem para os meus olhos

‘Inda são para te ver”.

 


 

Soube-lhe os olhos brincalhões, atrevidos. Nasceu-lhe um sorriso na alma... perdia-se assim em pensamento bons para manter o tempo e encurtar o caminho.

Depois era um “bom-dia!” aqui, “ boa-tarde!” além, a desafortunados em busca de outras fortunas. Às vezes, conversavam. Das vidas vividas e para viver. E foi assim que um almocreve lhe confessou:

 

- Veja bem amigo: sonhei três noites a fio, um sonho bonito! Aparecia-me uma cabra amarela, amarelinha, deitada num barroco. Eu, tudo era puxá-la pra a tirar dali. A malandreca dsafiava-me, trocista. Era cá uma zanga! É verdade, homem, ria-se. Ria-se de mim! Vossemecê não acredita?


 Os olhos de José , pareciam duas janelas escancaradas. Não queria crer no que ouvia, Continuava o almocreve:

 

- Quando se enfastiava daquele jogo, punha-se a meu lado e o barroco pesado como chumbo, levantava.se como por artes mágicas. E eu via... Oh! Meu Deus! Coisa mais linda: uma cabra e um cabritinho de oiro, reluzentes, acocorados como mãe e filho.

Uma fortuna!

Sonho, o que é que vossemecê quer?

Mas olhe, tê-lo encontrado, poupa-me a procura. Não guardei segredo, perdi o tesouro.

- Sonhos, homem!Lá me vou, que se faz tarde.


 O José, pastor da Serra de muitos sóis e invernias, percebeu. Aquele era o seu “bem”, de certezinha! A “chave” tinha-lha dado o almocreve. E decifrou:

A cabra amarela, era sua. Aquela que se deitava sempre no mesmo barroco e teimosa com só ela. Chamava-a, vezes sem conta, e nem se mexia. Era a sua cabrinha, a sua Amarela. A mais rabina do rebanho, a mais ousada. Tinha de ser!

E o José cabreiro regressou à terra à velocidade da curiosidade e do desejo... O segredo mantinha-o guardado a sete chaves... Chegado a casa, mal respondeu às perguntas que lhe fizeram:

 

- Por onde andaste? Que viste? Que novas Trazes?

- Logo digo! Hoje só quero dormir.

- Coisa estranha! – Cismava a mãe, preocupada com aquele silêncio num rapaz, habitualmente alegre, falador.


De manhãzinha saiu. Lá estava o barroco. E a Amarela estendida, tentadora, sem se desviar. Chamou-a a medo:

 

- Ei. Amarela-a-a-a!


Não sabe que jeito deu a cabrita, mas viu o penedo desviar-se, desprender-se, rolar pela encosta...

Ali, à frente dos olhos, luziam a cabra e o cabritinho de oiro de lei... Mãe e filho.

Saltou, rodopiou, riu, cantou, assobiou, festejou... Cansou...

E agora? Que fazer com tal estouro? Para que queria ele uma cabra e um cabrito de oiro, naquelas paragens? Quem lhos comprava? E quem ia acreditar naquela história?... Deu voltas e mais voltas à cabeça. Não achava. Quase lhe apeteceu enterrar de novo o segredo, tais eram as inquietações... Depois fez-se luz: pediu conselho à estrela mais brilhante, à estrela que tinha eleito como sua... Reluzindo deu-lhe a solução: iria ter com o Rei que vivia, de certeza, num palácio tão rico como céu com o sol de oiro, a lua e todas aquelas estrelas de prata.

Não foi fácil chegar ao monarca. Gente nobre não recebe gente pobre, por dá cá aquela palha, de qualquer maneira. Porém, o argumento era de valor e resistindo aos maus modos de lacaios bem ensinados, mas mal educados, pediu, insistiu e voltou a insistir... Queria falar com o Rei. Conseguiu entrar.

 

 

Por desfastio, o monarca recebe o pastor.

 

- Saiba, Senhor Rei, que tenho ali um cabrito e uma cabra para lhe oferecer. Faça o favor de escolher.

- Olha, traz o cabrito que é mais tenro!


 Os velhos conselheiros, cerimoniosos, concordaram com o sorriso oficial, de ocasião. Um cabrito para um Rei! Se alguma vez se vira: receber um pastor por causa de um cabrito!

O espanto aconteceu quando a oferta saiu do saco:

 

- Cabrito de oiro?!

- Sim, Senhor Rei.

- Se soubesse que era de oiro, preferia a cabra! Mas deixa lá: Palavra de Rei não volta atrás! Fico com o cabrito.

- E com a cabra, que lha dou eu, também! – respondeu o José Cabreiro.

 

O monarca, estupefacto, satisfeito com o presente e a generosidade do pastor, quis ouvir a história.

Encantou-se toda a corte... e o Rei decidiu recompensá-lo:

 

- Olha, sobes ao Monte mais Belo da tua região e todas as terras que avistares são tuas! Vou mandar ajaezar um cavalo, o melhor da cavalariça real, e serão também teus os locais que percorreres durante um dia!


O José não cabia em si de contente. Assim fez. E ainda hoje, em Belmonte. (O Belo Monte para todo o belmontense que se preze), pode ver-se o seu brasão com as cabrinhas bordadas em pedra, no Castelo, na Igreja de São Tiago, no solar. É o brasão dos Cabrais... a perpetuar a lenda linda.

 

 

 

Museu dos Descobrimentos

Em Belmonte iniciou-se a génesis da descoberta do Novo Mundo, já que aqui nasceu Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil. Foi com a intenção de homenagear este importante capitulo da história nacional e mundial, que se instalou no antigo solar dos Cabrais (Casa dos Condes), o Centro Interpretativo da Descoberta do Novo Mundo.

O espaço museológico é um novo pólo cultural e social, englobando diferentes serviços de apoio. Trata-se de um projecto interactivo, de sensações e de afectos que levará o visitante numa viagem de 500 anos de histórias da construção de um País e da sua portugalidade.

 

 

 

 

 

Museu do Azeite

Construído no final do século XIX e inícios do século XX, este lugar destinava-se sobretudo à transformação da azeitona de pequenos produtores, os quais recebiam em troca uma percentagem de azeite.

Após o seu encerramento, este espaço foi completamente abandonado até ser recuperado para instalação do Museu do Azeite, organizado com o propósito de mostrar o processo da transformação da azeitona em azeite, reforçando a importância que este sector já teve na economia local, ao longo dos tempos.

No museu do azeite pode-se fazer uma espécie de tiborna, ou seja, provar pão molhado no azeite, assim com adquirir vários tipos de azeite produzidos na região.

(A verdadeira tiborna faz-se molhando o pão quente em azeite, polvilhando-o com açúcar amarelo).

 

 

 

 

 

 

Ecomuseu do Zêzere

O Ecomuseu do Zêzere foi instalado na antiga Tulha dos Cabrais, edifício do século XVIII, onde eram armazenadas as rendas da família Cabral.

 

 

Trata-se de um museu com a função didáctica e pedagógica, onde se pode estudar o percurso do rio Zêzere, desde a sua nascente até à foz, assim como a sua fauna e flora.

 

Ocorrem pontualmente exposições temporárias. A porta da entrada principal é encimada por brasão mandado picar por Junot, aquando das Invasões Francesas.

 

 

Museu Judaíco

Este museu foi construído com a finalidade de homenagear e dar a conhecer a religião judaica em Portugal e mais concretamente em Belmonte, com as suas tradições e rituais específicos. Na entrada principal do museu é possível observar uma Mezuzah (símbolo da fé judaica merecedor de grande respeito). É costume da comunidade judaica beijá-la quando entram em casa, tocando-a com as pontas dos dedos e em seguida apertando-a contra os lábios. O visitante pode também provar o pão ázimo (sem fermento e sem sal) que se produz na época da Páscoa, assim como adquirir vinho e azeite Kosher.

 

Antigos Paços do Concelho

 

 

Castelo

 

A construção do castelo data do século XIII. Em 1258 D. Afonso III autoriza D. Egas Fafe a construir uma torre no Castelo de Belmonte, no entanto, no loca onde se ergue o Castelo, haveria já um sistema defensivo, posto a descoberto com as escavações arqueológicas realizadas no monumento, cuja construção estaria relacionada com as necessidades de repovoamento e de afirmação do poder real de D. Sancho I na região.

D. Afonso V em 1466 doa o castelo a Fernão Cabral I, tornando-se a residência da família Cabral.

 

As várias transformações efectuadas são ainda visíveis no pano da muralha oeste, com a construção de várias janelas panorâmicas. Destaca-se uma janela de estilo manuelino, da primeira metade  do século XVI, encimada por um brasão composto por duas Cabras (Cabrais). e seis ruelas (Castros), simbolizando a união de João Cabral Fernandes com D. Joana Coutinho de Castro.

Actualmente, o edifício tem funções turísticas e culturais, tendo sido construído um anfiteatro ao ar livre e a Torre de Menagem e sala Oitocentista adaptadas a espaços museológicos dedicados à história do Concelho e do Castelo.

 

 

Igreja de Santiago e Panteão dos Cabrais

Monumento de traço românico, que foi sofrendo modificações ao longo dos tempos, apresentando alguns elementos góticos e maneiristas. Foi talvez construída em 1240, por intermédio de D. Maria Gil Cabral, por disposição de D. Gil Cabral.

 

No interior do monumento, pode observar-se uma Pietá, em granito e policromática e pinturas murais, pelo menos de duas épocas, encontrando-se vestígios de um tríptico constituído por figuras que representam Nossa senhora, São Tiago (orago) e S. Pedro (que muitos dizem ser uma representação de Pedro Álvares Cabral).

 

 

Adossado à Igreja está o Panteão dos Cabrais, ainda em construção no ano de 1483. A renovação deste deve-se a Francisco Cabral, primeiro Alcaide de Belmonte após a Restauração, como a ele se devem alguns dos túmulos renascentistas ali existentes (1630).

Situada num dos caminhos portugueses de peregrinação a Compostela, a Igreja de Santiago seria um local, onde os peregrinos encontravam um conforto espiritual no decurso da sua jornada.

 

 

 

 

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publicado por VANDOVSKY às 09:44
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1 comentário:
De mfssantos a 3 de Março de 2012 às 19:33
Parabéns pelo trabalho. Obrigada pela partilha. É um belo convite a uma visita. Saudações. M.F.

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