Quinta-feira, 11 de Março de 2010

Não tenho tempo

 

Deus concedeu-nos o dom de viver;
compete-nos a nós viver bem.
Voltaire 

 

 

 

     

 

" Sabes, meu filho, até hoje não tive tempo para brincar contigo. Arranjei tempo para tudo, menos para te ver crescer. Nunca joguei dominó contigo, damas xadrez, ou batalha naval. Eu percebo que tu me procuras, mas, sabes, meu filho, eu sou muito importante e não tenho tempo. Sou importante para números, convites sociais e toda uma série de compromissos inadiáveis. Como largar tudo isso para brincar contigo? Não, não tenho tempo.


Um dia trouxeste o teu caderno escolar para eu ver e ficaste ao meu lado. Lembras-te? Não te dei atenção e continuei a ler o jornal. Porque afinal... afinal os problemas internacionais são mais sérios do que os da minha casa. Nunca vi os teus livros, não conheço a tua professora. Nem me lembro qual foi a tua primeira palavra. Mas, tu sabes, eu não tenho tempo. De que adianta saber as mínimas coisas a teu respeito se eu tenho outras grandes coisas a fazer?


É incrível como tu cresceste! Estás tão alto! Nem tinha reparado nisso. Aliás, eu quase não reparo em nada. E, nesta vida agitada, quando tenho tempo, prefiro usá-lo lá fora, porque, aqui, fico calado diante da televisão.


Porquê? Porque a televisão é importante e informa-me muito.


Sabes, meu filho, a última vez que tive tempo para ti foi numa noite de amor com a tua mãe. Eu sei que tu te queixas, eu sei que tu sentes a falta duma palavra, duma pergunta amiga, duma brincadeia, dum chuto na tua bola. Mas eu não tenho tempo. Eu sei que sentes a falta de um abraço e de um sorriso, de um passeio a pé, de ir até ao quiosque, ao fundo da rua, comprar um jornal, uma revista. Mas sabes há quanto tempo eu não ando a pé na rua? não tenho tempo. Mas tu entendes: eu sou um homem importante. Tenho de dar atenção a muita gente, eu dependo delas. Meu filho, tu não entendes nada de comércio. Na realidade eu sou um homem sem tempo. E sei que tu ficas triste porque as poucas vezes que falamos é um monólogo - só eu é que falo.


Eu quero silêncio. Quero sossego e tu tens a péssima mania de querer brincar com a gente. Tens a mania de saltar para os braços dos outros. Filho! eu não tenho tempo para te abraçar. Não tenho tempo para conversas e brincadeiras de crianças.

 

Filho, o que é que tu percebes de computadores, comunicação, cibernética, racionalismo? Tu sabes quem é Descartes e Kant? Como é que eu vou parar para falar contigo? Sabes, filho, não tenho tempo. Mas o pior de tudo, o pior de tudo é que se tu morresses agora, já, neste instante, eu ficava com um peso na consciência. Porque, até hoje, até hoje não arranjei tempo para brincar contigo. E, na outra vida, Deus não terá tempo de me deixar, pelo menos, ver-te.

Neimar de Barros

 

(Um poema que eu conheci, há anos, ainda miúda, declamado por Vítor de Sousa, que me fascinou e que eu penso que ficou a ganhar com a versão portuguesa)

publicado por VANDOVSKY às 20:37
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