Segunda-feira, 8 de Março de 2010

Mulher...

 

 

Nu blue II, 1952, Henri Matisse Nu blue debout, 1952, Henri Matisse

 

 

Aleluia


 

Era a mulher — a mulher nua e bela,

Sem a impostura inútil do vestido

Era a mulher, cantando ao meu ouvido,

Como se a luz se resumisse nela...

Mulher de seios duros e pequenos

Com uma flor a abrir em cada peito.

Era a mulher com bíblicos acenos

E cada qual para os meus dedos feito.

Era o seu corpo — a sua carne toda.

Era o seu porte, o seu olhar, seus braços:

Luar de noite e manancial de boda,

Boca vermelha de sorrisos lassos.

Era a mulher — a fonte permitida

Por Deus, pelos Poetas, pelo mundo...

Era a mulher e o seu amor fecundo

Dando a nós, homens, o direito à vida!

Pedro Homem de Mello, in "Miserere"

 

 

Fantasia

 


Há uma mulher em toda a minha vida,

 

Que não se chega bem a precisar.

Uma mulher que eu trago em mim perdida,

Sem a poder beijar.

 

 

Há uma mulher na minha vida inquieta.

Uma mulher? Há duas, muitas mais,

Que não são vagos sonhos de poeta,

Nem formas irreais.

Mulheres que existem, corpos, realidade,

Têm passado por mim, humanamente,

Deixando, quando partem, a saudade

Que deixa toda a gente.

 

Pablo Picasso, Les baigneuses, 1918



Mas coisa singular, essa que eu não beijei,

É quem me ilude, é quem me prende e quer.

Com ela sonho e sofro... Só não sei

Quem é essa mulher.

Alfredo Brochado, in "Bosque Sagrado"

 

Pablo Picasso,Les Demoiselles d'Avignon, 1907

 

Calçada de Carriche

Luísa sobe,

sobe a calçada,

sobe e não pode

que vai cansada.

Sobe, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe

sobe a calçada.

Saiu de casa

de madrugada;

regressa a casa

é já noite fechada.

Na mão grosseira,

de pele queimada,

leva a lancheira

desengonçada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Luísa é nova,

desenxovalhada,

tem perna gorda,

bem torneada.

Ferve-lhe o sangue

de afogueada;

saltam-lhe os peitos

na caminhada.

Anda, Luísa.

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Passam magalas,

rapaziada,

palpam-lhe as coxas,

não dá por nada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Chegou a casa

não disse nada.

Pegou na filha,

deu-lhe a mamada;

bebeu da sopa

numa golada;

lavou a loiça,

varreu a escada;

deu jeito à casa

desarranjada;

coseu a roupa

já remendada;

despiu-se à pressa,

desinteressada;

caiu na cama

de uma assentada;

chegou o homem,

viu-a deitada;

serviu-se dela,

não deu por nada.

Anda, Luísa.

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Na manhã débil,

sem alvorada,

salta da cama,

desembestada;

puxa da filha,

dá-lhe a mamada;

veste-se à pressa,

desengonçada;

anda, ciranda,

desaustinada;

range o soalho

a cada passada;

salta para a rua,

corre açodada,

galga o passeio,

desce a calçada,

desce a calçada,

chega à oficina

à hora marcada,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga;

toca a sineta

na hora aprazada,

corre à cantina,

volta à toada,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga.

Regressa a casa

é já noite fechada.

Luísa arqueja

pela calçada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada,

sobe que sobe,

sobe a calçada,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

António Gedeão, in 'Teatro do Mundo'

 

 

Pablo Picasso, Mulher com uma flor, 1932                  Pablo Picasso, Banhista com bola de praia, 1932

 

Retrato das Mulheres em Todas as Idades

Mulher, de quinze a vinte é fresca rosa;

De vinte, a vinte e cinco é de exp'rimenta.

De vinte cinco a trinta, a graça aumenta:

Ditoso nesta idade quem a goza!

De trinta a trinta e cinco é mal gostosa

Porém, pode passar, com sal, pimenta,

Mas já dos trinta e cinco aos quarenta

Vai-se tornando assaz fastidiosa.

De quarenta e cinco ela é bachareleira,

Fala fanhoso e é já de pouco gabo.

De cinquenta cerrados é santeira!

Aos sessenta este seu retrato acabo:

Menina, moça, velha benzedeira,

Bruxa gogosa, então, leve-a o diabo!

Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'

 

 


publicado por VANDOVSKY às 00:01
link do post | comentar | favorito

                     Este    Blog              utiliza     o      Google                  Chrome

restos de mim

encontre outros restos

 

Abril 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30


novos restos

Primavera

Inscrição para uma lareir...

A neve

Quando Está Frio no Tempo...

David Bowie... Sempre

Winter Wonder

Menino

Clandestinos do Amor

UPI na Escola

Momentos de inspiração VI...

Momentos de inspiração VI

Momentos de inspiração V

Palavras de mãe

Dá-me um beijo

Dia nacional do estudante

Dia da mulher

Vamos adivinhar II

O Vento que soa...

De passagem por Monsanto....

A cerimónia do chá II

restos conservados

English French German Spain Italian Dutch
Russian Portuguese Japanese Korean Arabic Chinese Simplified
By Ferramentas Blog

mais inspiradores

tags

todas as tags

restos especiais

Música Tradicional da Bei...

A minha Aldeia

My favourite time of year

Aldeias Históricas... e n...

Momento musical


outros caminhos


Be Happy!!

Directorio de Blogs Portugueses